01-07-2020 - Anussim Brasil
A primeira mulher chama-se Eva. Segundo a Torah, foi criada da costela de Adão e descrita como uma ajudante. Como assim ajudante? Não fui criada do pé, pensei. Mas há duas traduções ?uma ajudante para ele? ou ?uma ajudante contra ele?. Gostei.
De novo estou eu, a usar a primeira pessoa do singular. Um líder da nossa Sinagoga me solicitou que escrevesse sobre direitos e deveres da mulher anussim, dentro da comunidade. Achei uma responsabilidade imensa, maior entre todos os artigos escritos por mim, até o presente momento. Sou quase uma anciã, nascida no século vinte e igualmente revolucionária, pois a maioria das evoluções e transformações do mundo ocorreram neste século . Já disse que fui cristã e que vim de uma cristandade, super moderna. As mulheres podiam subir ao púlpito, cantar, orar, vestiam-se com moderação e muitas outras práticas, que no Judaísmo, a maioria destas que citei, não acontece. Me vi tentada a continuar assim, mas havia um problema. Apenas um. E por causa dele, eu não consegui me encaixar mais. Não conseguia deixar de pensar “Ouve Israel, teu D_us é um”.
Confesso que em princípio, estranhei a maneira judaica de ser. Principalmente, porque não temos pedigree. Somos filhos dos forçados e achei o modo judeu, um tanto quanto patriarcal e difícil de entender, porém a única forma de me estabelecer e encontrar o D_us verdadeiro. Primeiro Ele te chama e cabe a você tão somente, aceitar a condição que lhe é imposta. Eu poderia continuar adorando a D_us em minha casa, afinal faz muitos anos que meu marido e eu, estudamos a Torah e costumes judaicos. Sempre gostei de cantar louvores, de participar ativamente em acampamentos e outros, que fazíamos em tempos passados. Mas muitas vezes eu sentia, aquilo tudo era apenas um teatro. Um teatro muito bem feito e ensaiado várias vezes para agradar ao público, mas não sei se o Eterno se agradava daquilo. Ele é quem julga.
Muitas pessoas que conheço, me perguntaram se eu estava desequilibrada. Afinal, sair de uma religião fácil de cumprir e me integrar, me tornar algo diferente do que sou, era uma loucura. Também achei. Enfim, cabia agora a mim como mulher, me descobrir como uma judia anussim. Estudar valores e pesquisar sobre todas as facetas agradáveis ou desagradáveis do Judaísmo, para mulheres do século XXI. Pesquisei sobre como eram nossas ancestrais, voltei meus olhos para as mulheres bíblicas. A primeira mulher chama-se Eva. Segundo a Torah, foi criada da costela de Adão e descrita como uma ajudante. Como assim ajudante? Não fui criada do pé, pensei. Mas há duas traduções “uma ajudante para ele” ou “uma ajudante contra ele”. Gostei. Isso quer dizer, que D_us nos criou para que tenhamos nossa própria vontade. Estudando mais profundamente, descobri que nós mulheres, não somos obrigadas a fazer muitas coisas descritas na Torah. Por exemplo: O homem no Judaísmo precisa usar tsitsit, porque as franjas representam as 613 leis, que deverá cumprir. Também usam kipá e rezam três vezes ao dia. As mulheres também têm algumas obrigações em relação ao seu modo de vestir, cobrir a cabeça (no caso das casadas) e de acender as velas para o recebimento do Shabat.
Porém, há uma discussão severa nos nossos dias, do que seja masculino e feminino (sobre gêneros) mas ainda assim, sabemos que D_us criou dois seres. Um com o órgão reprodutor externo e outro com interno. Que a junção desses seres em um ato físico, produz um outro corpo. E essa é uma função muito particular, que a mulher tem. A função da perpetuação da espécie. Na realidade é uma ajuda mutua para a reprodução. Tornando-se assim, o homem ajudante da mulher e a mulher do homem. Pois a mulher não pode ser mãe sozinha (no sentido biológico) bem como o homem tão pouco. Mas aqui faço um parêntese. Nos dias de hoje, a mulher que não pode ter filhos por exemplo, pode ter a opção de barriga de aluguel, embora no Brasil seja proibido. Também há a opção da fecundação “in vitro”, na qual não há necessidade de cópula, apenas da doação dos gametas, tanto do homem quanto da mulher. De qualquer forma, para a procriação há necessidade dos dois sexos, seja ela natural ou por meios científicos. Portanto, a criação desta nova vida, faz com que homens e mulheres, demonstrem seu amor para aquele novo ser.
Na maioria das vezes, os mandamentos para as mulheres são os que dizem respeito ao lar. Muito embora nos nossos dias, muitas de nós sejam “a cabeça” da casa. Isso eu já discuti em outros artigos anteriores. Mas voltando a questão “casa”. Cabe as mulheres “casherizar” a comida e utensílios usados para faze-la. No caso da mulher anussim, nem sempre consegue fazer isso cem por cento, porque não há muitos locais onde se possa adquirir produtos “casher”, uma vez que o judeu “secular” geralmente nega a venda, aos que consideram goys. Portanto, evitamos certos tipos de alimentos para não haver contaminação. Também é responsável pela pureza familiar, separando-se temporariamente de seu marido, em seu período menstrual. Ao término deste, banha-se na Micvê (rio ou mar se for mais fácil) para se purificar e estar novamente apta a assumir seu papel de mulher entre o casal.
Também é importante o respeito mútuo. Vivemos em um país ainda machista. Muitos homens ainda estão na idade da pedra, achando que as mulheres são suas propriedades. Tanto é verdade, que nesta Pandemia, muitas mulheres estão sendo agredidas e muitas vezes, com um final muito pior: são mortas pelos companheiros. Então isso passa a ser um problema. Portanto, que o relacionamento deve ser pautado no respeito, entre ambas as partes, para que nenhum seja subjugado ao outro. Como um líder da nossa Sinagoga citou dias desses “a mulher está sob missão e não submissão”. E então retornamos a primeira mulher bíblica: Eva. Mãe de todas e de todos. Cumpridora da primeira lei da Torah, cresceu com seu companheiro Adão e multiplicou. Em nossos dias, a mulher pode escolher se quer ser mãe de muitos ou de nenhum. Entre homem e mulher deve haver: negociação (no sentido de acordo) companheirismo, cumplicidade e muitas outras coisas para formar a base de um casamento feliz. Lembrar sempre que estar casada (o) não é estar em uma competição, de quem é mais ou menos importante na relação. Os dois são igualmente importantes.
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