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BENDITO ÉS TU ETERNO, QUE NÃO ME FIZESTE MULHER? COMO É QUE É?

13-08-2020 - Anussim Brasil

Nossa sociedade está muito avançada e praticamente não existem campos profissionais, nos quais a mulher não está inserida.

Enquanto meu marido e eu tentávamos nos adaptar ao Judaísmo, resolvemos adquirir livros de reza, Torah e outros. Nos encantamos, pois as rezas são lindas quando refletidas, nas palavras que contém. Então certo dia, nosso Presidente estava rezando on-line, no Sidur (livro de rezas) e uma pessoa (que não fui eu) perguntou “mas por que Bendito és tu Eterno, que não me fizeste mulher?”. O mundo mudou desde que os nossos sábios fizeram esse livro. Hoje em dia, dizer isso para nós mulheres é uma ofensa, é como falar mal de negros, de homossexuais e de qualquer outra classe, que faz parte da minoria. Há outras frases antes dessa, das quais são dadas graças por não nascer escravo por exemplo. Mas isso é uma outra história. Quando li isso, também fiquei pensativa. Por que? Será que somos inferiores? Pensei com meus botões “se Judaísmo trata a mulher desse jeito, nunca que vou me tornar uma judia”.
Nosso Presidente tentou responder da melhor forma possível e partir daí, todos os que rezaram com ele, mudaram essa frase. Mas aquilo ainda continuou na minha cabeça. O papel da mulher na sociedade mudou muito, não exatamente como gostaríamos, mas devagar temos galgado muitos degraus, que outrora nem poderíamos imaginar.  Muitas vezes estou escrevendo sobre isso (questões femininas) mas é inevitável, pois é a oportunidade que tenho como mulher, expor idéias, uma vez que no serviço do Shabat por exemplo, não podemos discutir sobre esse tipo de assunto. É confuso para entendermos o papel da mulher dentro da religião.  Todos os dias os homens rezam algumas orações, dentre elas a que diz “Bendito sejas Tu, Eterno, nosso D_us, Rei do Universo que não me fizeste mulher”. Isso doi no ouvido de qualquer mulher, mexe com o interior e inevitavelmente a mágoa aparece. Levei tempo para me conformar e aceitar que essas palavras não significavam exatamente o que estavam escritas.
Quando fiz Letras, aprendi a diferença entre significado e significante. Aliás é uma das primeiras coisas que você aprende. E também difícil de explicar para os leitores, mas vamos exemplificar: pense em uma estrela. Você sabe o que é uma estrela (significado) e também a ideia abstrata, mental da estrela sem estar vendo uma neste momento (significante).  Me concentrando nisso, fui atrás da questão desse “que não me fizeste mulher”.  Não sei se as soluções que discutirei a posteriori para tal frase, são suficientemente convincentes, mas enfim, estas conclusões vêem dos sábios do Talmud (exclusivamente homens).  A interpretação do Salmo (Tehelim) 45:14 “Toda a glória da filha do rei na sua casa”. Pois bem, em nossos dias um “confinamento” no lar, procriadora e auxiliadora do seu marido.
Interessante pensar em mulheres dependentes primeiramente dos pais e depois do marido e totalmente sem condições de discussões, que exigissem mais intelectualidade. Isso era coisa para homem.  Nesse pensamento em tempos talmúdicos era um insulto uma mulher frequentar mercado, casa de estudos, cultos religiosos e outros. Uma ofensa sem precedentes. A missão da mulher era estar voltada ao lar, as crianças e ao marido. É claro que isso tudo toma tempo, fazendo com que a mulher não tivesse condições para se dedicar ao estudo da Torah. Então para compensar, nos liberaram de certos preceitos judaicos, os quais podem ter momentos específicos a serem cumpridos. Por outro lado, liberadas de algumas obrigações judaicas, mas ainda subordinadas ao marido, ao lar e as crianças.
Então vamos citar algumas judias, que fizeram história, mesmo em tempos sombrios. Em primeiro lugar e não menos importante, Maria “a Judia” inventora da técnica de cozimento chamado de banho Maria. O reconhecimento através do batismo de tal procedimento, com o nome da inventora. Marie Curie, a revolucionária, em tempos que a ciência era ditada apenas por homens. Foi a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel. Polonesa e caçula de uma família judia, começou como professora e então dedicou-se a física e química, descobrindo a radioatividade. Outra Judia importante foi Salomé G. Waelsch, geneticista alemã, que desenvolveu a técnica da genética em mamíferos. Estudou química e zoologia, tornando-se professora na Universidade de Columbia. Fugitiva da Alemanha Nazista. Também temos Hedy Lamarr, estrela de Hollywood, austríaca e desenvolveu durante a segunda guerra, um sistema de comunicação para as forças armadas americanas. As mensagens chegavam aos receptores e não eram detectadas pelos inimigos. Servindo de base para a criação do telefone, bluetooth e celular.  Conhecida em nossos tempos nos meios tecnológicos, como a mãe do wi-fi. E há outras renomadas e não menos importantes, que poderíamos citar neste artigo. Mas, com esses exemplos de mulheres fortes, judias e inteligentes, os paradigmas de que, uma mulher só pode ser procriadora e cuidadora são totalmente discutíveis.
Há mulheres que adoram serem donas de casa e mães. Mas agora, além de sermos judeus e judias anussim, estamos no século 21. E essas mulheres que citei pertencem aos séculos 19 e 20. Muita coisa mudou. Muitos livros  substituíram das bênçãos “porque não me fizeste mulher” por “que me fizeste segundo a Tua Vontade” ou ainda “que me fizeste à Tua imagem”.  Levando-se em conta que D_us criou a todos e a todas segundo “a imagem e semelhança”, não há porquê fazer distinção entre ambos, haja vista, que macho e fêmea os criou. Revisando as tarefas ditas “femininas” também podemos afirmar que, em nossa sociedade atual, são divididas igualitariamente entre ambos os sexos. Além de que, muitas invenções foram feitas para facilitar a vida da mulher e também ajudantes, que lhes dão maior liberdade e tempo para estudos de qualquer natureza.
Nossa sociedade está muito avançada e praticamente não existem campos profissionais, nos quais a mulher não está inserida. Não vemos ainda em Sinagogas, mulheres lendo a Torah ou mesmo em um Minyan. A mulher brasileira reclama de machismo, mas ela mesmo cria sua prole dessa forma. Entretanto, agradeço ao Eterno por estar em uma Sinagoga, cujos líderes foram dotados por D_us, de uma visão ampla, em que inserem a mulher e as respeitam com dignidade, como seres pensantes e competentes. Nos dão vez e voz e nos deixam ser usadas pelo Eterno, para escrevermos o que tivermos de melhor dentro de nós. Então vale recitar esse verso anônimo: A mulher é tão diferente do homem, quanto o homem o é da mulher. Nem mais, nem menos. Aceitar as nossas diferenças é reconhecer a nossa igualdade.

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