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JUDAÍSMO E PLÁSTICA REPARADORA

26-08-2020 - Anussim Brasil

Atualmente temos cirurgia plástica estética e reconstrutora. A estética interfere na aparência física (nariz, olhos, face, mamas etc). A reconstrutora é aquela que corrige defeitos congênitos ou adquiridos

Vamos começar pelo final, a maneira mais prática de explicar os prós e os contras. A primeira mulher a receber um transplante facial foi Isabelle Dinoire. Em 2005, ela foi atacada por seu cachorro da raça labrador enquanto dormia.  Ela faleceu em 22/04/2016 aos 49 anos.  “Desde o dia da operação, eu tenho um rosto como todo mundo” disse Dinoire. “Eu posso abrir a minha boca e comer. Recentemente, senti meus lábios, meu nariz e minha boca”.  Outro caso é de uma norte-americana chamada Connie Culp foi atingida no rosto, por uma bala de espingarda pelo seu marido. Esse tiro fatal destroçou nariz, bochechas e comprometeu a visão. Logicamente seria impossível para ela retornar a sua vida corriqueira e interagir com as pessoas. Totalmente desfigurada em 2004 por este fato, surgiu a esperança de ter a face melhorada, através de cirurgia plástica em 2008. Nesta cirurgia, a americana recebeu a 80\% do rosto de uma doadora com morte cerebral. Foram usados além da doação facial, ossos de suas costelas e pele da coxa para a reconstrução, que lembrasse uma humana em Connie. Foram aproximadamente 30 intervenções cirúrgicas. Na época já haviam sido feitos cinco procedimentos deste tipo em outros pacientes, porém esse foi o mais revolucionário de todos. A receptora em questão faleceu aos 57 anos, dia 30/07/2020.
Então, agora começamos uma discussão problemática. Até que ponto podemos mexer em nosso corpo, por questões de estética. Claro que os relatos acima não foram por vaidade e sim por necessidade.  Será que elas seriam felizes durante anos depois das cirurgias, se não as tivessem feito? Algumas autoridades rabínicas fazem uma diferenciação entre uma pessoa “oficialmente morta” e outra que ainda esteja em condições de retornar a vida. Cientificamente, aquelas que estão em aparelhos e, portanto, para haver a morte oficial, deve haver morte cerebral. A partir daí, pode-se remover os órgãos necessários para transplante. Os sábios também discutem sobre questões de atraso de enterro e etc, e argumentam que a lei de salvar uma vida sobrepõe a proibição da Torah. Por outro lado, há rabinos que discordam , dizendo que qualquer tipo de mutilação é questionável e que pode interferir no descanso e paz eterna da alma. Entretanto, mutilação é diferente de correção. Mutilar é causar um dano e correção é feita com o consentimento prévio da pessoa.
Deixemos a religião um pouco de lado e vamos para a história. Em sânscrito há 2.600 anos A.E. C, há textos versando sobre o assunto e também em antigos papiros Egípcios. Nestes documentos são relatos as reconstruções de lábios, nariz, orelha e até mesmo outros “implantes” necessários, para manter o individuo com aspecto natural. Entretanto em 1818, a cirurgia plástica foi introduzida, embora confundida com cirurgia reconstrutora. Então, no século XIX, houve progressos no campo da cirurgia como a assepsia (lavagem das mãos)  que diminuía as infecções hospitalares. Luiz Pasteur, por exemplo, provou que as bactérias provocavam infecções. Então o risco de infecções nas cirurgias diminuiu sensivelmente.  Em 1846, o éter entra como a primeira forma de anestesia geral e introduz a era da anestesia cirúrgica.
Atualmente temos cirurgia plástica estética e reconstrutora. A estética interfere na aparência física (nariz, olhos, face, mamas etc). A reconstrutora é aquela que corrige defeitos congênitos ou adquiridos. Aqueles que podem acontecer em um acidente ou aqueles os quais as pessoas nascem (deformidades). Voltando ao Judaísmo. Enquanto a cirurgia plástica se desenvolvia, começaram as discussões rabínicas. Em 1961, o Rabino Immanuel Jakobovitz participou de um simpósio sobre cirurgia plástica e deixou quatro pilares a serem analisados 1) se a operação é medicamente indicada, como por exemplo após um acidente, ou por graves razões psicológicas; 2) se a correção da deformidade é para facilitar ou manter um casamento feliz e 3) se a cirurgia permitirá que a pessoa desempenhe um papel construtivo na sociedade e ganhe um sustento decentemente. Além do Rabino Jakobovitz, há várias outras opiniões de Rabinos, divergentes entre si. Porém, o que mais se ressalta nestas cirurgias são situações perigosas. Vamos dar um exemplo, que não se refere a cirurgia plástica, mas que pode colocar uma vida em risco. A hipótese de uma mulher grávida, no hospital esperando para fazer um parto normal. Testes feitos, tudo perfeito e de repente, ela sofre de uma situação chamada de eclampsia (aumento da pressão arterial). Neste caso existe uma problemática séria: a morte da mãe ou do feto. Então ao invés de haver um parto normal, parte-se para uma cesariana, tornando o parto mais seguro e com possibilidade de salvar duas vidas (cirurgia intervencionista para evitar risco de morrer).Um outro caso grave existente em uma determinada religião, que proíbe a transfusão de sangue, também é discutível. Na maior parte dos casos, os membros desta seita, redigem um documento dizendo que não aprovam a transfusão, colocando em risco a vida do paciente. Porém na existência do documento em questão, se o médico não intervir, poderá sofrer consequências jurídicas.
Voltemos então ao nosso assunto, O Rabino Breish concordou que mulheres podem fazer cirurgia estética, pois é para que se sintam bem e não para que se sintam prejudicadas. Em 1964, Rabino Menasheh Klein, abordou problemas grandes que possam interferir em ela casar-se, por exemplo. E declara que não há perigo algum nas cirurgias plásticas, embasado nas informações de médicos que consultou. Porém, para os homens é proibido, uma vez que seria adotar comportamentos femininos, na opinião do Rabino citado. O Rabino Shlomo Zalman Aurbach (1910-1995) disse que “Se a cirurgia plástica é feita para impedir sofrimento e vergonha causados por um defeito na aparência (exemplo, um nariz que seja muito anormal) isso seria permitido, baseado no Tosafot e Guemara, pois o objetivo é remover um defeito”.
Finalmente, a opinião de um judeu Ronaldo Golcman – Cirurgião Plástico, chefe da equipe do Hospital Israelita Albert Einstein/SP desde 1986, com Doutorado em Cirurgia Plástica pela USP (1992) e Cirurgião Plástico Titular e Especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (1985). Diz ter consciência de que não somos donos de nossos corpos, pois é um empréstimo dado por D_us e não podemos mutita-lo . Porém, a Torah respeita se você tem um problema no corpo e aceita que se faça uma correção. Ressalta que há respaldo de alguns Rabinos e comunidades ortodoxas que valorizam o bem estar psíquico, físico e social. O interior da pessoa se sentirá melhor se houver defeitos e problemas, que possam ser corrigidos pela medicina moderna.
E você o que acha?


 

Raquel Pereira Bittencourt

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