07-10-2020 - CONIB
A Arábia Saudita, um dos estados mais poderosos do mundo muçulmano, há muito tempo mantém laços secretos com Israel. Muitas especulações giraram nas últimas semanas em torno do papel potencial de Riad nos chamados Acordos de Abraham, mediados pelos EUA e que estabeleceram laços abertos entre Israel, Bahrein e os Emirados Árabes Unidos.
Em entrevista à TV saudita al-Arabiya, o ex-chefe de inteligência saudita Bandar Bin Sultan disse que os líderes palestinos fracassaram por terem perdido oportunidades de um acordo com Israel e por estarem agora se alinhando com os “inimigos da Arábia Saudita”.
“A causa palestina é justa, mas seus defensores fracassaram. E a causa israelense pode ser injusta, mas seus defensores tiveram sucesso. Isso resume os eventos dos últimos 70 ou 75 anos”, disse Bin Sultan.
Bin Sultan serviu como embaixador da Arábia Saudita em Washington por mais de 30 anos, bem como em vários cargos de alto nível na inteligência após seu retorno a Riad. Ele liderou os serviços de segurança da Arábia Saudita de 2012 a 2014, dirigindo também o Conselho de Segurança Nacional do país por mais de uma década.
Na entrevista, Bin Sultan analisou a história das relações entre a Arábia Saudita e os palestinos e criticou duramente a liderança palestina pelo que considerou serem “repetidas oportunidades perdidas” para chegar a um acordo com Israel, e por ignorar os conselhos políticos sauditas.
“Acredito que nós, na Arábia Saudita, agindo de boa vontade, sempre estivemos lá para eles. Sempre que pediam conselho e ajuda, nós fornecíamos os dois sem esperar nada em troca, mas eles aceitavam a ajuda e ignoravam os conselhos. Então, eles falhavam e recorriam a nós e nós os apoiávamos novamente, independentemente de seus erros”, disse Bin Sultan.
“Fomos ainda mais longe como Estado e justificamos para o mundo todo as ações dos palestinos, embora soubéssemos que elas, de fato, não se justificavam, mas não queríamos nos posicionar diante de ninguém contra eles”, disse Bin Sultan.
Os comentários Bin Sultan refletem o crescente desencanto com a liderança palestina na Arábia Saudita, assim como representam sinais de uma aproximação entre o reino e o Estado judeu. O príncipe herdeiro Mohammad bin Salman disse ao The Atlantic que acreditava que tanto os palestinos quanto os israelenses tinham o direito “às suas próprias terras”..
A Arábia Saudita, um dos estados mais poderosos do mundo muçulmano, há muito tempo mantém laços secretos com Israel. Muitas especulações giraram nas últimas semanas em torno do papel potencial de Riad nos chamados Acordos de Abraham, mediados pelos EUA e que estabeleceram laços abertos entre Israel, Bahrein e os Emirados Árabes Unidos.
Bin Sultan abordou o plano de partilha de 1948 e os Acordos de Camp David de 1979 com o Egito, os quais poderiam ter levado ao estabelecimento de um estado palestino. Ele considerou ambos os planos preferíveis ao status quo, observando o crescimento contínuo dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. Ele disse que a recusa palestina em chegar a um acordo – e os boicotes que lideraram contra aqueles que o fizeram, como o Egito – levaram o mundo árabe à divisão.
“Israel estava trabalhando para aumentar sua influência, enquanto os árabes estavam ocupados uns com os outros. Os palestinos e seus líderes lideraram essas disputas entre os árabes”, disse Bin Sultan.
Bin Sultan acusou o falecido líder palestino Yasser Arafat de não ter coragem política para aceitar os Acordos de Camp David, dizendo que mesmo Arafat admitiu que suas disposições eram melhores do que os Acordos de Oslo, que ele finalmente assinou com Israel em 1995.
“Eu pensei comigo mesmo, ele poderia ter sido um mártir e dar sua vida para salvar milhões de palestinos”, disse Bin Sultan.
Bin Sultan também falou sobre as conversas que liderou entre as facções palestinas rivais Fatah e Hamas. De acordo com ele, foi necessária uma diplomacia complexa para chegar a um acordo que satisfizesse os dois movimentos, que estão em desacordo desde a luta de 2007 pelo controle da Faixa de Gaza.
Mas assim que Fatah e o Hamas assinaram um acordo, Bin Sultan disse: “Quando recebemos notícias de que eles já haviam cumprido sua palavra, ele começaram a conspirar um contra o outro novamente”.
As relações entre os palestinos e as monarquias conservadoras do Golfo vêm declinando há anos. A Autoridade Palestina não recebe ajuda dos Emirados Árabes Unidos desde 2014, enquanto a Arábia Saudita começou a prender e processar membros do Hamas em seu solo já em 2017.
Quando os acordos de Abraham foram anunciados em meados de agosto, os palestinos foram às ruas para queimar fotos do príncipe herdeiro dos Emirados, Mohammad bin Zayed. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, descreveu a decisão dos Emirados de normalizar com Israel como “uma facada nas costas”.
De acordo com Bin Sultan, a retórica empregada pelos palestinos para criticar os acordos de normalização foi uma “transgressão contra a liderança dos Estados do Golfo” e um “discurso repreensível”.
“Esse baixo nível de discurso não é o que esperamos de autoridades que buscam obter apoio global para sua causa”, destacou.
Bin Sultan também acusou a liderança palestina de se alinhar com o Irã e a Turquia contra as monarquias conservadoras do Golfo.
“Quem são os aliados dos palestinos agora? É o Irã, que está usando a causa palestina como pretexto às custas do povo palestino? Ou é a Turquia, que os líderes do Hamas agradeceram por sua posição de apoio à organização e à causa palestina?” questionou Bin Sultan.
+ Notícias